O “Era uma vez...” foi a minha demissão.
Era tudo ― eu pensava ― para tornar aquela desgraça de dia o pior de todos da minha vida ― mas, claro, como eu descobri em seguida, as coisas ainda poderiam piorar bastante.
Eu havia queimado com ferro meu terninho de trabalho preferido ― e também o único limpo ― de modo que tivera que ir trabalhar com uma saia até os joelhos e uma blusa social que Thiago, meu último namorado, havia esquecido na minha casa. Eu estava ridícula.
Para piorar, não havia nada minimamente comestível na minha geladeira ― tive que ir embora ainda passando fome ― e o ônibus que eu pegara até o trabalho fizera o favor de enguiçar quase na metade do caminho ― é, eu tive que correr todos os três quilômetros restantes.
Cheguei esbaforida e despenteada à redação, ainda apertando as mãos contra o peito, tentando regular minha respiração.
Qual não foi minha surpresa quando George, meu chefe, disse que precisávamos “conversar”. É, isso aí. Ele usou as aspas. Nunca era um bom sinal quando ele usava as aspas.
George ― baixinho e careca, cara de mau, terno de elite ― parecia muito tímido quando eu me sentei na frente de sua enorme mesa de mogno para a tal conversa. Era uma coisa que eu nunca pensei que fosse ver. George tímido, digo. Ele normalmente era arrogante e tão seguro de si quanto um tubarão.
Primeiro pensei que o motivo da “conversa” era a ridiculeza das minhas roupas.
― Olha, me desculpe ― comecei, porque ele permanecia calado. ― Houve um pequeno incidente hoje de manhã e... essas roupas ― eu apontei para as tais ― eram a minha única opção, se eu não quisesse trabalhar pelada. Me desculpe de verdade. Isso não vai se repetir.
Por um instante os olhos dele se amansaram e ele quase sorriu ― eu disse quase! ―, como se eu estivesse ali, na frente dele, contando uma piada.
― Isso não é sobre suas roupas, Anna ― disse calmamente.
Em todos os quase sete meses que eu estivera trabalhando ali, George nunca havia falado comigo calmamente. Era quase como se ele só tivesse uma marcha: stress. A máquina arranhando, pedindo socorro à embreagem, mas ele só ficava no stress.
Engoli em seco, prevendo o apocalipse que viria nos próximos instantes. Se não era a roupa, devia ser algo pior.
― Não? ― minha voz saiu tão baixa que nem eu mesma ouvi.
― Não ― George respondeu ainda assim. Ajeitou algumas pilhas de papel na sua mesa, olhou para o relógio na parede atrás de mim, suspirou, e tornou a encontrar meu olhar. ― Eu sinto muito, Anna ― disse, e foi quase como se sentisse mesmo ― mas estamos reduzindo o departamento.
As palavras bateram na minha cabeça e saíram, como que refletidas. O conteúdo delas não foi nem minimamente absorvido, pelo menos pelos primeiros cinco segundos, em que fiquei igual uma pateta encarando George e sorrindo. Isso aí. Sorrindo.
Não devia ser tanta surpresa para mim a demissão. Quer dizer, não que eu não fosse boa no que fazia. Era apenas que eu carregava aquela maldição de ser “indiferente para o mundo”. Falando sério.
Quando eu tinha cinco anos, meus próprios pais me esqueceram no super mercado. Só foram se lembrar de mim quando chegou a hora do jantar e não tinha ninguém chorando de fome.
E teve aquela outra vez na quarta série em que a escola se esqueceu de me enviar o convite para a festa junina anual. Nem preciso dizer que meu parzinho na quadrilha teve pular a “cobra”, desviar da “ponte” e se proteger da “chuva” completamente sozinho. Mas tenho certeza de que nem mesmo ele sentiu a minha falta.
E quando passei no vestibular meu nome não foi colocado na lista dos aprovados apenas por conta de um erro técnico, o que me faz pensar que nem mesmo os computadores me enxergavam.
Levando em conta o desastroso histórico, talvez eu já devesse estar acostumada.
Mas o gosto amargo e corrosivo da rejeição era o mesmo toda vez, e doía o fundo do meu coração pensar que eu nunca seria chamada ou mesmo mencionada para resolver alguma situação delicada e vital, e provavelmente, se o mundo estivesse acabando, o presidente dos Estados Unidos não ligaria para os federais, histericamente berrando: “Pelo amor de Deus, chamem a Anna! Ela vai saber o que fazer!”
― Anna? ― a voz rouca de fumante de George me levou de volta ao presente, e eu forcei meu cérebro a trabalhar rápido a fim de traduzir todas as palavras que meu chefe havia despejado alguns segundos antes.
― Você está me demitindo? ― perguntei devagar.
― Bem, eu... ― ele pigarreou e balançou a cabeça. ― Não coloque dessa forma, Anna. Veja como uma oportunidade.
O que se traduz para, basicamente: “Sim, Anna. Apenas se abaixe, para que fique mais fácil de dar um pé na sua bunda.”
Eu quis gritar. Quis mesmo. Eu podia quase sentir minha garganta aprisionando minhas cordas vocais, para que elas não decidissem agir sozinhas.
Pisquei meus olhos bem forte, na esperança de aquilo tudo não passar de um desagradável pesadelo, mas George e e sua careca brilhante não sumiram da minha visão num passe de mágicas.
― Quero que saiba que isso não tem nada a ver com seu desempenho ― George prosseguiu, assinando e carimbando uma papelada de aparência importante, como se eu não estivesse bem ali na sua frente, sendo demitida. ― De verdade. Escrevi uma carta de recomendação que deve estar na sua mesa por agora... Se a secretária fez favor de me obedecer hoje ― resmungou sozinho, e tornou a me olhar. ― E você receberá, com certeza o pagamento desse mês.
“É, veja pelo lado bom,” aquela vozinha que é sempre positiva exclamou na minha cabeça. “Estamos no dia sete apenas, e você vai receber pelo mês inteiro!”
Mas aquilo não era o suficiente para me confortar. Eu gostava do meu emprego. Não estava em nenhum lugar dos meus planos perdê-lo. Especialmente não no mesmo dia que eu tinha realizado a proeza com o ferro de passar, queimando meu terninho preto tão bonitinho ― eu mencionei que ele era um Calvin Klein legítimo? (Ok, do outono retrasado, mas ainda assim!)
― Certo ― eu disse, forçando um sorriso enquanto comandava a meu cérebro que não deixasse as lágrimas passarem, não ainda, porque eu tinha lá o meu orgulho.
― Muito bem, então ― George escancarou os dentes no que parecia uma tentativa de sorrir ainda mais patética que a minha. ― Acredito que não terá problema algum encontrando um novo emprego ― disse numa voz quase paternal. De novo, quase! ― Você é uma garota muito boa.
Fiz um esforço monumental tentando acreditar naquelas palavras, juro que sim, mas, obviamente, é impossível não se sentir um fracasso quando você é tão desprezável que, ao primeiro sinal de terem que reduzir um departamento, você é a pessoa que lhes vem à cabeça.
― Bem... Foi um prazer, Anna.
Talvez eu não seja muito boa com o significado das palavras, mas isso definitivamente não foi um prazer.
Ele estendeu a mão para mim, e daquela vez eu tive a certeza de que ele estava, mesmo, tentando sorrir. Deus, era macabro! Era ainda mais amedrontador do que o George-feroz de sempre. Quis mencionar isso a ele, dar uma dica do tipo “Não tente sorrir. Não cai bem com você”, mas desisti, emburrada, no último instante. O maldito havia acabado de me demitir! Eu não ia ficar lá dando sugestões de como ele poderia melhorar sua vida sendo mais agradável ao olho alheio!
Apertei a mão dele, que se fechou como uma garra ao redor da minha, me sacudiu duas vezes e me largou, como se eu fosse lixo tóxico. Ah, e se ele acha que eu não percebi que, uma vez liberto do meu aperto, ele discretamente limpou a mão na parte de trás de sua calça, está muito enganado! Cretino!
― Já pode ir agora ― George instruiu, quando eu fiquei lá parada, sem esboçar reação.
Assenti e saí de lá, apressada.
Ao chegar à minha mesa, Marquinhos já esperava por mim, e tinha posto todos os meus pertences dentro de uma caixa de papelão, exatamente como fazem nos filmes as pessoas que são demitidas.
― Eu sinto muito, Anna ― ele disse, mas estava claro que não sentia.
Apesar dos adoráveis cabelos loiros cacheados e dos óculos pendurados no nariz que lhe davam pose de intelectual inofensivo, Marquinhos era uma espécie de rato traiçoeiro esfaqueador de costas que geralmente falava o exato oposto do que queria dizer. Ele me odiou desde o começo, e não seria surpresa alguma se ele estivesse envolvido mais profundamente na minha demissão.
O fato de ele ter carinhosamente arrumado as minhas coisas não tinha nada a ver com seu afeto por mim. De certo modo, eu tenho a impressão de que, se houvesse qualquer probabilidade de eu morrer em breve, Marquinhos seria encontrado no cemitério à meia-noite, cavando a minha cova para que eu pudesse bater as botas o quanto antes.
Naquele dia, porém, eu fiquei agradecida por sua insensibilidade. A demissão havia me deixado débil-mental, e eu não acho que teria sido capaz de organizar minhas coisas no estado em que me encontrava.
Com minha cabeça ainda latejando, eu tomei a caixa das mãos dele.
― Obrigada, Marquinhos ― murmurei, caminhando para a saída.
― Disponha ― ele disse. ― E boa sorte.
Todos estavam me encarando enquanto eu atravessava o grande salão editorial, como se fossem cúmplices de algum tipo de crime. Aparentemente, a notícia de que eu seria demitida já estava rolando muito antes que eu de fato fosse informada.
“Tenha dignidade, Anna,” ordenei a mim mesma. “Salve as lágrimas para derramar com um pote de sorvete na frente da televisão mais tarde.”
O mundo foi desabando a cada passo que eu dava.
Parei diante do grande elevador metálico e, após apertar o botão, respirei fundo, tentando focar minhas prioridades.
ÓÓÓÓÓHHHH, um milagre! #barbixasfeelings
ReplyDeleteFicou muito melhor desse jeito, tia! :D
Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaais!